A nova tradução de O Senhor dos Anéis – Adeus a orcs, goblins e trolls

O mundo dos fãs de Tolkien está em rebuliço! Uma nova tradução das obras de Tolkien já está nas livrarias. Com a publicação de Beren e Lúthien A Queda de Gondolin, alguns dos termos com os quais já estávamos acostumados receberam alterações, como orcs, goblins e trolls. Agora nós temos orques, gobelins e trols!

UM POUCO DE HISTÓRIA

Entre os leitores mais jovens, nem todos sabem que a famosíssima trilogia O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, foi escrita entre 1937 e 1949, com muitas partes criadas durante o período da Segunda Guerra Mundial, e teve sua primeira publicação entre 1954 e 1955. Desde então, a obra foi traduzida para 56 idiomas e recebeu sua versão cinematográfica entre 2001 e 2003 sob a direção de Peter Jackson, tornando-se um recorde de bilheteria.

A primeira tradução em português do Brasil foi publicada entre 1974 e 1979 pela editora Artenova, com tradução de Antônio Rocha e Alberto Monjardim. A edição atualmente disponível é da editora Martins Fontes e foi publicada em 1994, com tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves. As edições sucessivas passaram pelas mãos de Amiro Pisetta e Ronald Kyrmse.

Contudo, as traduções sempre foram alvo de críticas, tanto que quando a editora HarperCollins, que detém os direitos sobre as obras de Tolkien no Reino Unido, abriu filial no Brasil, começou a receber cartas de fãs pedindo que comprassem os direitos das obras e as republicasse com uma nova tradução, já que a versão da Martins Fontes continha mais de 200 erros e omissões.

A súplica dos fãs foi atendida e em novembro de 2017 foi publicado Beren e Lúthien, seguido por A Queda de Gondolin, em agosto de 2018, com traduções de Ronald Kyrmse e Reinaldo José Lopes, respectivamente, obras até então inéditas no Brasil, dando início a um longo projeto que promete publicar as obras completas de Tolkien no Brasil nos próximos 7 anos.

A MALDIÇÃO DAS TRADUÇÕES

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Naturalmente, os problemas com as traduções de uma obra tão amada e complexa não foram poucos. Em especial, a tradução para o holandês, em 1956, e o sueco, em 1959, não foram apreciadas pelo autor, que fez duras críticas aos tradutores.

Em 1947, O Hobbit foi traduzido para o sueco como Hompen. Em Portugal, a Livraria Civilização traduziu O Hobbit como O Gnomo, em 1962. Obviamente Tolkien não aprovou. No Brasil, o livro foi publicado em 1976 pela Artenova como O Hobbit e, em 1985, Portugal finalmente recebeu sua nova tradução com o título correto, O Hobbit.

Muito chateado com o rumo que as traduções estavam tomando, principalmente com as versões para o sueco e o holandês, em 1966 Tolkien resolveu escrever um guia para a nomenclatura de sua obra, A Guide to the Names in The Lord of the Rings, que foi finalizado em 1967, com o propósito de servir de orientação para os tradutores.

A NOVA TRADUÇÃO

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Com a tradução para o português de Beren e Lúthien e A Queda de Gondolin, foram introduzidas importantes mudanças na nomenclatura. Em especial, os termos orc e goblin, que passaram a ser traduzidos como orque e gobelim. A nova tradução causou controvérsias entre os fãs, o que é natural em uma obra complexa e de fama mundial como a de Tolkien, mas é importante analisar a questão do ponto de vista do tradutor, e não apenas dos fãs.

Inicialmente, o próprio Tolkien se manifestou contra a tradução dos termos hobbit e orc em cartas, onde defendia a origem inglesa das histórias e seus personagens, e que suas características deveriam ser mantidas, bem como os nomes de lugares, incluindo shire. Contudo, após uma troca extensa de cartas entre fãs, tradutores e estudiosos, tudo indica que ele acabou se tornando mais flexível em relação às traduções de alguns termos, levando em consideração a necessidade de facilitar a compreensão da obra em outros países, imersos em realidades muito distantes dos condados ingleses. Com o passar dos anos, muitos dos termos criados por Tolkien entraram para o vocabulário comum e hoje orcs, goblins e trolls estão presentes em toda parte, da literatura fantástica aos jogos de RPG.

A editora HarperCollins Brasil montou uma equipe digna de respeito para as novas traduções, que conta com um verdadeiro “Conselho de Tradutores”, composto por nomes como o pesquisador tolkieniano Ronald Kyrmse, os tradutores Reinaldo José Lopes e Gabriel Brum e o gerente editorial da HarperCollins Brasil, Samuel Couto, um grande fã de Tolkien e responsável pelas obras do autor na editora. As intenções são as melhores possíveis, pois pretendem dar à obra uma nova dimensão, semelhante ao status que possui no Reino Unido, onde é considerada uma obra canônica.

No caso de orc, houve quem criticasse a escolha alegando que teria sido feito um empréstimo do francês, e não uma adaptação fonética, mas acredito que seja uma crítica infundada, considerando a seriedade da equipe de tradutores. Do ponto de vista linguístico, a adaptação fonética é correta. Nós não temos palavras com o c mudo no final, e orc já era naturalmente pronunciado como “orque” em português, então nada mais natural do que passar a utilizar essa grafia em português, como fizemos com outras palavras como tank/tanque ou park/parque, para citar apenas alguns exemplos.

Os tradutores afirmam que foi feita uma extensa pesquisa sobre a origem da palavra orc como é usada por Tolkien, que estariam no inglês antigo de Beowulf, um dos mais antigos poemas épicos da língua inglesa, onde aparecia como orcneas, supostamente derivado do latim orcus, significando inferno, demônio. Este se diferencia do orc moderno que dá origem ao nome de vários cetáceos (orca). Contudo, nem mesmo a opção de usar “orco” me parece melhor, principalmente porque se trata de uma palavra já dicionarizada em português, com o sentido de personificação da morte, de modo que não seria um termo novo.

O outro termo que gerou controvérsias foi goblin, que passou a ser “gobelim”. Neste caso, os tradutores afirmam que tentaram seguir a etimologia do inglês, que é derivada do grego e do latim como gobalos e kobalos, entrando para o inglês como goblin, e consequentemente para o francês como gobelin. Eles tentaram imaginar como a palavra teria entrado para o português no mesmo período, e como o encontro consonantal b-l é recente, a opção mais acertada seria “gobelim”.

O trabalho do tradutor é ingrato, pois suas escolhas nem sempre são compreendidas pelo leitor, algumas vezes nem mesmo pelo próprio autor. Quem não é profissional da área não tem ideia do que se passa pela cabeça de um tradutor na hora de escolher um termo, das inúmeras conjecturas que leva em consideração, é quase como uma operação aritmética linguística! Mas é importante saber que por trás de cada obra há um enorme trabalho de pesquisa feito por profissionais com o objetivo oferecer o melhor produto possível, sempre respeitando o estilo do autor. Também é importante ressaltar que as alterações foram aprovadas pela Tolkien Society, a maior autoridade no assunto.

Dito isso, eu confesso que gostei das novas traduções para os termos, embora ainda não tenha lido os novos livros. Agora só me resta esperar que a minha cópia de Beren e Lúthien chegue do Brasil!


LINKS

Entrevista com o Conselho de Tradução: https://www.valinor.com.br/51098

Artigo no site Tolkien Brasil: http://tolkienbrasil.com/noticias/diversas/as-origens-da-palavra-orc/

Artigo no site Jovem Nerd: https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/o-senhor-dos-aneis-mudancas-traducao-br/

Site da Tolkien Society: https://www.tolkiensociety.org/


7 thoughts on “A nova tradução de O Senhor dos Anéis – Adeus a orcs, goblins e trolls”

  1. Ótimo texto! Esses debates sobre a nova tradução de LOTR são interessantíssimos. Revisar uma obra tão basilar para a literatura fantástica é muita responsabilidade. Uma pequena observação: há um erro de digitação no 2º parágrafo da seção “A nova tradução”. Você escreveu “condados inglese”, quando deveria ser “condados ingleses”.

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  2. Só para deixar claro. Eu sou membro da Tolkien Society e escrevi os artigos sobre Orque e Gobelim. Tolkien Society é um grupo de fãs e não tem relação com a Tolkien Estate (que é a família Tolkien). Apesar disso, ambas aprovaram, por exemplo, a tradução de O Senhor dos Anéis da Martins Fontes, que tem mais de 300 erros e omissões de parágrafos. A escolha de Orque e Gobelim foram um desrespeito ao que Tolkien pretendia. Orque não existe na nossa língua e Gobelim em nossos dicionários é o mesmo que Tapeçaria francesa (vide Aurélio).

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  3. Olá Eduardo! Obrigada por visitar meu blog e principalmente por seus esclarecimentos.
    Concordo com você no ponto que obter a aprovação da Tolkien Society e da Tolkien Estate não garante que o livro esteja 100% isento de erros, mas acredito que as alterações tenham sido debatidas e então aprovadas. Pelo menos é assim que deveria ser na minha opinião. No entanto, como não tenho informações sobre como funciona esse processo, prefiro não me aprofundar na questão.
    Eu li os seus artigos, todos muito bem fundados e fruto de muita pesquisa. Parabéns! Gostaria de esclarecer que entendo seu ponto de vista e respeito, contudo acredito também que os novos tradutores tenham feito uma grande pesquisa bem detalhada, embora seguindo outra estrada. Boa sorte pra você na sua iniciativa!

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  4. Agora que o pior da grita já parece ter amainado…
    Muito obrigado por seus comentários, equilibrados e competentes, e que ressaltam que o ofício da tradução é mesmo controverso. Como dizia Umberto Eco, traduzir é escrever “quase a mesma coisa” em outro idioma. E é claro que “traduttore, traditore”, e que gregos e troianos dificilmente serão apaziguados.
    O que deve ser destacado, isso sim, acima das pequenas discordâncias (mas que aumentam quanto mais se as repisa), é o ambicioso projeto da HarperCollins Brasil, de trazer todo o legendário tolkieniano para nossa língua.

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  5. A honra é minha de ser mencionado em sua postagem. Só mais uma observação: Quem verificar a nova edição do “Senhor dos Anéis” poderá confirmar que o conteúdo (e a forma também) está bem mais caprichado que nas versões anteriores (if I say so myself).

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