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A nova tradução do Pai Nosso em italiano

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Os erros de tradução sempre aconteceram, alguns chegaram até a mudar o rumo da história (aguarde o próximo post), e os textos canônicos não são exceção. Um bom exemplo é a Bíblia, cujos erros de tradução já foram abordados em inúmeros artigos. O mais recente, porém, terá um efeito no modo em que os italianos rezam, pois altera um trecho muito importante da oração Pai Nosso.

A frase em questão é non ci indurre in tentazione, o equivalente ao “não nos deixeis cair em tentação” em português. O problema é que essa afirmação, traduzida livremente para o português como “não nos induzais à tentação”, passa a ideia errada de que é Deus quem coloca as tentações no nosso caminho, enquanto, na verdade, a ideia original é que Ele, como um bom pai, jamais nos abandona, somos nós que caímos em tentação. Dessa forma, a frase foi alterada para non abbandonarci alla tentazione, ou seja, “não nos abandoneis à tentação”.

A mudança foi proposta pelo presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI), cardeal Gualtiero Bassetti, e aprovada pelo papa Francisco em maio de 2019, que já havia criticado a tradução em 2017.

A origem do erro está no grego, a língua na qual foram escritos os evangelhos, mas que foi por sua vez traduzido do aramaico, língua na qual Jesus conversava com seus discípulos.

Vejamos como ocorreu esse processo: o verbo em grego era eisféro, que significa “conduzir para dentro”, a frase completa era kài mè eisenénkes hemâs eis peirasmón, e foi traduzida como et ne indūcas nos in tentatiōnem.

Provavelmente, a ideia de induzir em tentação vem da palavra peirasmós, derivada do verbo péiro, que significa “atravessar de um lugar a outro”, que gerou a ideia de “levar para dentro da tentação”, como se fosse um lugar, daí a escolha do verbo inducēre em latim, ou indurre em italiano, que significa “conduzir para dentro”.

Do ponto de vista técnico, não podemos dizer que a tradução antiga estava errada, o raciocínio estava correto, afinal é natural que no processo de traduzir do aramaico para o grego, do grego para o latim e então do latim para o italiano, além das outras línguas, alguma coisa se perdesse, mas a falha real foi não levar em consideração as interpretações que a tradução geraria. Como conclusão, mais vale interpretar o sentido real que a mensagem original quer passar do que a tradução literal correta da palavra em questão.

É interessante notar que a versão francesa também foi alterada em 2017 pelos mesmos motivos, embora o verbo usado na versão antiga fosse “submeter”, passando de ne nous soumets pas à la tentation, a ne nous laisse pas entrer en tentation. Contudo, a versão em inglês, and lead us not into temptation, não foi alterada. Somente o espanhol tem uma versão semelhante ao português, com no nos dejes caer em tentación.

A mudança, contudo, foi proposta já em 1988, quando um grupo de 15 biblicistas se reuniu para revisar a antiga tradução de 1971. No entanto, a nova versão ainda não é usada na Santa Missa, pois deve aguardar sua publicação oficial, e será utilizada na liturgia oficialmente a partir de novembro de 2020.

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Harry Potter e suas traduções

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O NASCIMENTO DE UMA SAGA

A saga Harry Potter, de J. K. Rowling, completou 22 anos do lançamento de seu primeiro volume, Harry Potter a e Pedra Filosofal, publicado em 1997. Durante essas duas décadas, a saga acumulou 7 livros, 10 filmes e mais de 400 milhões de livros vendidos, que foram traduzidos em mais de 74 idiomas! No entanto, as traduções revelaram-se uma enorme dor de cabeça para os tradutores, devido à quantidade de neologismos, desde nomes de personagens a criaturas e encantamentos.

O principal problema com as traduções de Harry Potter, como acontece com a maioria das sagas, nasce no momento da tradução de seu primeiro livro, pois então ninguém poderia imaginar a fama mundial que o garoto Harry ganharia, tampouco que o livro se transformaria numa das sagas mais longas, conhecidas, traduzidas, filmadas e lucrativas da história! No Brasil, o primeiro livro foi classificado como literatura infantojuvenil do gênero fantasy e, com o intuito de facilitar a leitura por parte das crianças brasileiras com idade até os 13 anos, com pouco ou nenhum conhecimento da língua inglesa, fundamental para compreender as inúmeras referências diretas e indiretas presentes no texto, decidiu-se traduzir ou adaptar a maior parte dos nomes para tentar aproximar ao máximo o ambiente britânico ao brasileiro, criando uma espécie de “ponte cultural”. Por isso, Bill virou Gui, Albus virou Alvo e Severus virou Severo. No entanto, muitas escolhas tradutórias foram feitas sem levar em consideração desdobramentos futuros, e acabaram gerando muita controvérsia e críticas. Com a explosão de popularidade da obra e o passar dos anos, seus leitores fiéis também cresceram (e aprenderam inglês), o que aumentou também o nível de exigência com as traduções, já que hoje seu público inclui leitores entre os 8 e os 80 anos!

PROBLEMAS DE TRADUÇÃO

Ser fiel ao original é o objetivo de todo tradutor, mas os desafios são muitos, principalmente quando se trata do gênero fantasy, pois o texto tende a ser muito criativo, geralmente ambientado em um mundo imaginário e repleto de termos novos e, em alguns, até mesmo novos idiomas, basta pensar nas sagas O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Gelo e Fogo ou As Crônicas de Nárnia. Quando a língua original é o inglês, por exemplo, o autor pode expressar sua criatividade valendo-se da estrutura do próprio idioma, pois sua origem anglo-saxônica facilita muito a criação de neologismos. E é aqui que começa a dor de cabeça dos tradutores. A tradução de nomes próprios por exemplo, causa sempre muitas controvérsias. A regra de ouro é não traduzir, mas quando esses nomes têm um significado importante na obra, o risco é que se crie uma lacuna informativa na obra traduzida. O dilema que o tradutor enfrenta é entre não traduzir os nomes próprios e deixar o leitor com uma obra recheada de nomes estrangeiros, ou traduzir tudo, ou quase, correndo o risco de não ser totalmente fiel ao original ou até mesmo de não agradar aos leitores. Geralmente, o meio-termo é a melhor solução.

No caso de Harry Potter, os nomes têm um valor ainda maior, pois J. K. Rowling atribuiu significados profundos a cada um deles. Alguns exemplos são Sirius Black, que esconde um trocadilho com as palavras black (preto) e Sirius, que é o nome de uma estrela muito brilhante, contrapondo-se ao black; Remus Lupin, que faz uma referência ao herói da mitologia romana Remo e a um lobisomem; Peeves, que vem do verbo to peeve (incomodar), que gerou o ótimo “Pirraça” em português.

A TRADUÇÃO BRASILEIRA

A tradução para o português foi feita pela Lya Wyler, minha excelente ex-professora de tradução literária no curso de Especialização em Tradução na PUC-RJ. Suas escolhas já foram muito contestadas, mas eu, como tradutora, defendo sempre meus colegas, afinal, a tradução literária é uma arte, e não é para qualquer um. É preciso ter estilo, criatividade, sensibilidade, elegância, sutileza na escolha das palavras, saber fazer pesquisa, além de lidar com os prazos apertados e as exigências da editora. Não dá pra jogar no Google Translate, assim como não basta olhar palavra por palavra no dicionário (na verdade, nenhum tradutor trabalha assim, nem mesmo no mais entediante manual de software!). O trabalho de Lya Wyler foi tão bom que há quem afirme que sua tradução tenha superado o original em estilo, pois era uma excelente tradutora literária, contando com obras de escritores como Henry Miller e Tom Wolfe em seu currículo.

Em português, optou-se por traduzir ou aportuguesar a maioria dos nomes próprios, como Dudley, que virou Duda, James, que virou Thiago e Bill, que virou Gui, bem como nosso querido Rony, que em inglês é Ron, para citar apenas alguns. Dessa forma, aproximou-se a obra ao universo dos leitores brasileiros. Já os nomes que terminam com o sufixo -us do latim foram aportuguesados com -o, como Albus-Albo, Severus-Severo, Remus-Remo.

A TRADUÇÃO ITALIANA

Mas a dor de cabeça não foi exclusividade da língua portuguesa, pois os outros idiomas enfrentaram problemas semelhantes, em maior ou menor grau, e cada um superou os desafios de forma diferente. Os franceses, por exemplo, resolveram traduzir quase todos os nomes, já os italianos começaram traduzindo tudo, mas voltaram atrás em 2011 e passaram a usar muitos termos em inglês. Decisão muito contestada, mas compreensível, considerando que 4 tradutoras participaram do projeto ao longo dos anos.

Em italiano, o problema mais gritante aconteceu com o nome de dois personagens importantes, Neville Longbottom e Albus Dumbledore. Na primeira edição, o sobrenome de Neville foi traduzido como Paciock, uma derivação de pacioccone, termo usado para descrever uma pessoa de boa índole, mas um pouco desajeitada, o que poderia ser verdadeiro nos primeiros livros, mas não nos últimos, onde ele se revelou um verdadeiro herói. O significado do termo Longbottom seria “longa vale”, e teria sido usado por JKR como uma alusão às suas origens humildes, do campo. Provavelmente, isso levou as tradutoras da edição mais recente a voltar a usar o nome como no original. O caso de Albus Dumbledore foi semelhante, a primeira tradução ficou como Albus Silente, que vai totalmente contra a ideia original, já que dumbledore é uma forma arcaica de bumblebee, uma espécie de abelha, (calabrone in italiano) usado para evocar o fato do personagem ser uma pessoa boa, sempre andando de um lugar para o outro e falando sozinho, como uma abelha que vai de flor em flor zunindo continuamente. Ideia completamente diferente de Silente. Até mesmo Severus Snape teve seu nome alterado para Severus Piton. Aqui é interessante notar que, em português, a ênfase ficou no nome Severo, retirando a terminação latina –us, mas deixando de lado Snape, cujo significado é repreender, reprovar, além de ser o nome de uma cidade na Inglaterra, segundo JKR. Em italiano, ele é conhecido como Severus Piton, provavelmente derivado de pitone (serpente), talvez uma alusão ao seu caráter amargo, venenoso.

Outro ponto interessante que apresentou um desafio aos tradutores é o registro linguístico de Hagrid. No original em inglês, ele fala em dialeto de Bristol. Na versão italiana, ele fala simplesmente errado, em tom simplório, com erros de concordância, como falaria alguém sem instrução. Em português, a tradutora optou por não incluir erros gramaticais nem caracterizar sua fala com sotaques regionais, como caipira mineiro ou nordestino, por exemplo, pois nenhuma dessas escolhas passaria o mesmo efeito do original, além de acrescentar uma característica ao personagem muito regional e não fiel, levando em consideração a discriminação linguística que infelizmente existe no Brasil. Acredito que tenha sido uma escolha muito sensata.

AS CASAS DE HOGWARTS

As famosas casas de Hogwarts também merecem destaque. Na tradução italiana, optou-se por dar maior importância às cores das casas, talvez buscando uma semelhança com as bandeiras das contradas do Palio de Siena, usando nas traduções uma combinação entre as cores e os animais que representam as casas. Enquanto no português, a ênfase ficou apenas no animal da casa, com exceção de Hufflepuff, que foi traduzida pela sonoridade. Vejamos:

GryffindorPT: Grifinória – IT: Grifondoro/ Gryffindor (2011) – Significado do termo original: “grifo de ouro”, mas seu animal é um leão e suas cores são o vermelho escarlate e o dourado.

Ravenclaw – PT: Corvinal  – IT: Corvonero – Significado do termo original: “garra de corvo”, embora o animal em seu símbolo seja uma águia e suas cores sejam o azul e o bronze, não o preto.

Slytherin PT: Sonserina  – IT: Serpeverde – Significado do termo original: “rastejante”. A tradução para o português talvez seja derivada de sonso, dissimulado, que é a tradução de sly. Em italiano, serpe é uma espécie de serpente, em linha com o animal da casa e suas cores, o verde e o prateado.

Hufflepuff PT: Lufa-Lufa  – IT: Tassorosso / Tassofrasso (2011) – Significado do termo original: provavelmente derivado da frase usada na história dos Três Porquinhos – “I will huff and puff and I will blow your house down”. Tanto huff quanto puff são sinônimos de soprar, daí a ideia de “lufa-lufa”, que significa agitação, corre-corre, mas também é derivado de “lufada” ou “lufa”, um vento forte. Já o termo italiano tomou como base o animal representante da casa, um texugo (tasso).

Minhas traduções preferidas são:

Quidditch, que em português virou “Quadribol”, uma ótima saída, pois usa as mesmas letras iniciais quid/quad, associando o prefixo quadr- ao fato do jogo ter 4 bolas e unindo-o ao sufixo -bol;  

Muggle, babbano em italiano, “trouxa” em português. Deriva de mug, gíria inglesa para “trouxa”, contudo, como se trata de um neologismo em inglês, teria sido uma boa ideia criar um neologismo também em português, inventando uma palavra derivada de “trouxa”. No italiano, por exemplo, da palavra babbeo foi criado babbano;

Crookshanks, traduzido como “bichento”. Como é o nome de um gato de pernas tortas (crook=curvado + shank=canela), “bichento” foi uma grande sacada, pois é um regionalismo do Brasil usado pelos nordestinos para definir uma pessoa com as pernas tortas e, ao mesmo tempo, inclui uma referência à palavra “bichano”, termo afetuoso para gatos.

AS CRIATURAS

Minha crítica em especial vai para os nomes de duas criaturas. A insistente e irritante adaptação do nome de criaturas fantásticas que busca nivelar por baixo o público, em vez de incentivar a pesquisa e apresentar os novos leitores de fantasy ao universo das criaturas mitológicas. Um bom exemplo é a adaptação de goblin como duende e de ghoul como vampiro. Um goblin é um ser muito diferente de um duende, assim como um ghoul não é um vampiro. Os goblins geralmente têm a pele verde, aparência feia, são maus ou simplesmente travessos, dotados de pouca inteligência. As outras características dependem do universo ao qual pertencem, os goblins de O Senhor dos Anéis são diferentes dos goblins de Magic: The Gathering ou Dungeos & Dragons, por exemplo, e os goblins de Harry Potter possuem características próprias, sendo inteligentes e hábeis nas finanças, mas isso não os classifica como duendes que, sem entrar em suas origens, são criaturinhas travessas que habitam uma casa e são geralmente dóceis. O ghoul aparece no sétimo livro, quando Ron usa um vampiro como disfarce, mas na verdade a criatura era um ghoul (o erro foi corrigido mais tarde). No mundo fantasy, o ghoul geralmente é uma espécie de demônio que se alimenta de carne humana, com origem na mitologia árabe, e sua tradução estaria mais próxima a carniçal, mas isso seria, mais uma vez, uma descaracterização. Portanto, um ghoul é um ghoul e pronto. E um vampiro, bem, todo mundo sabe o que é um vampiro. A simplificação torna o texto mais fácil para o leitor, mas o empobrece.

 FONTES

https://www.pottermore.com/

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Lobo gigante, Rei Bacalhau e Winterfell – uma análise comparada das traduções

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Após concluir o glossário trilíngue com os principais termos encontrados nos dois primeiros livros da obra, não pude deixar de notar as diferenças entre as traduções que esses receberam em português e em italiano. O primeiro fato que salta aos olhos é a grande quantidade de termos que não foram traduzidos no italiano, principalmente os nomes de lugares, como Antlers, Blackmont, Deepwood Motte, Lordsport e Moat Cailin, entre outros, enquanto em português traduzimos praticamente tudo. Provavelmente o tradutor italiano resolveu respeitar a regra de não traduzir topônimos, enquanto nós a violamos, numa tentativa de aproximar o máximo possível o leitor à criatividade que Martin usou até mesmo nos nomes dos lugares, todos carregados de significado. Entretanto, alguns termos receberam traduções muito interessantes em italiano, enquanto deixaram um pouco a desejar na nossa língua. Os motivos podem ser dos mais variados, mas, geralmente, é uma simples questão estética, pois o tradutor não encontrou uma tradução que soasse bem na própria língua, como é o caso de Winterfell, que recebeu um comentário na Nota do Tradutor no primeiro livro. Outro fato interessante sobre as traduções para o italiano é a forte influência do tradutor no texto, pois em vários termos sua criatividade acabou “traindo” o autor e passando ideias muito divergentes do original. Antes de expor meus comentários, gostaria de esclarecer que este artigo não é uma crítica ao trabalho dos tradutores, os quais respeito muito, mas sim uma reflexão sobre a linha de raciocínio usada, a terminologia escolhida, as acepções dos termos na língua de origem e de chegada e o impacto da tradução no leitor não falante de inglês.

Abaixo vou analisar os casos mais interessantes:

CASTERLY ROCK/ ROCHEDO CASTERLY/ CASTEL GRANITO – Este é um dos castelos mais importantes da história e, na minha opinião, poderia e merecia um tratamento mais detalhista. Após uma observação de um dos leitores do blog e de uma pesquisa detalhada, descobri que o nome do castelo é derivado da antiga Casa Casterly, já extinta, descendente dos Primeiros Homens. Portanto a tradução para o português está correta, mas a tradução para o italiano ignora esta informação. Castel Granito usa o termo Castel, muito comum na designação dos comunes italianos, que é originário da língua occitana e significa castelo.

CRANNOGMEN/ CRANOGMANOS/ CRANNOGMEN – A definição de Crannog em inglês é “an ancient Celtic lake or bog dwelling”, ou seja, uma ilha artificial, geralmente em forma de cabana, construída às margens de um lago ou pântano. A palavra tem origem no gaélico irlandês crannóc. O temo existe em português (e em italiano) como crannóg, de forma que a tradução do português está ótima como “cranogmanos”.  No entanto, em italiano acredito que poderia ter sido usada uma adaptação semelhante, algo como “cranogmani”, em vez de manter o termo em inglês.

DIREWOLF/ LOBO GIGANTE/ META-LUPO – A tradução de Direwolf como “Lobo gigante” é um caso interessante. O termo é usado para definir um animal da mesma espécie do lobo comum, mas muito maior. Além disso, há algumas referências no texto que indicam que o animal tenha poderes sobrenaturais. Dire em inglês significa algo assustador, que causa medo, então acredito que o “gigante” foi uma alternativa que o tradutor encontrou usando como base o tamanho do animal, na falta de um termo equivalente que soasse bem em português. Em italiano, a tradução ficou muito boa como meta-lupo, pois o prefixo grego meta significa mudança, transcendência, passando a ideia de um animal que é mais do que um simples lobo. Parece que o francês seguiu, em parte, a mesma linha do português, usando loup géant (lobo gigante) ou loup-garou que seria o equivalente a lobisomem, mas aqui prefiro não comentar e deixar o tema aberto para algum tradutor de francês.

DROWNED GOD/ DEUS AFOGADO/ DIO ABISSALE – O nome dessa divindade tem um significado importante para a religião, pois o batismo é feito com uma tentativa de afogamento, seguida por uma reanimação cardiorrespiratória. Drowned significa afogado, portanto a tradução para o português está fiel e correta, mas a do italiano não, pois o “Deus Abissal” invoca uma ideia de abisso marinho, que não é pertinente, e deixa de lado a significativa ideia do afogamento. O resultado é uma perda de informação.

EASTWATCH-BY-THE-SEA/ ATALAIALESTE-DO-MAR/ FORTE ORIENTALE – Este é outro lugar de grande importância na obra. A tradução para o português é fiel ao original, porém a italiana, Forte Orientale, ignorou uma informação crucial para o leitor, a parte by the sea, ou seja, ao mar, fazendo referência a sua posição, pois é a parte da Muralha que toca o mar. Essa construção segue um padrão muito comum no inglês, a de usar no nome de uma localidade uma referência a um rio ou mar próximo, como Kingston upon Thames ou Stratford-upon-Avon. A omissão torna-se mais evidente quando comparamos os nomes dos outros fortes da Muralha, como Westwatch-by-the-Bridge (Atalaiaoeste da Ponta/Ponte del Forte Occidentale) e Woodswatch-by-the-Pool (Atalaiabosque da Lagoa/Forte del Bosco).

FIREWYRM, WYRM/ WYRM DE FOGO/ IDRA DI FUOCO – O wyrm é um animal mitológico semelhante a uma serpente marinha. No caso do firewyrm, trata-se de uma criatura semelhante a um dragão que cospe fogo e vive em baixo da terra. “Wym de Fogo” é uma boa tradução em português, mas em italiano ele foi traduzido como idra di fuoco. Entretanto, a hidra é um animal mitológico semelhante a uma serpente marinha que possui várias cabeças, portanto, a tradução escolhida é aproximativa.

HAND OF THE KING/ MÃO DO REI/ PRIMO CAVALIERE – Este é outro caso clamoroso de erro de tradução em italiano. Enquanto em português a tradução literal como “Mão do Rei” é correta, em italiano o termo ficou conhecido como Primo Cavaliere, ou seja, “Primeiro Cavaleiro”. O título é atribuído ao principal conselheiro do rei. Primeiramente, a tradução não está correta porque o cargo não é exclusividade de cavaleiros, o rei pode nomear qualquer um para este cargo, até mesmo a rainha. Mas o problema principal é que a alusão à “mão” como símbolo seria muito importante, fato que o tradutor não poderia imaginar no início de seu trabalho. A mão está presente até fisicamente em uma série de objetos pertencentes ao encarregado, como o broche em forma de mão que é símbolo de seu cargo, um colar de pequenas mãos apoiadas umas sobre as outras, etc. Até mesmo várias piadinhas ficaram sem significado para o leitor italiano, como quando alguém sugere a um personagem manco que assuma o cargo de Mão do Rei, ele responde: A Hand without a hand? A bad jape (A Feast for Crows, Cersei I), que em italiano ficou como Un Primo Cavaliere mutilato? Pessima batuta, que em português seria: “Um Primeiro Cavaleiro mutilado? Péssima piada”, mas a piada, infelizmente, não existe. Outro exemplo é a piadinha que Robert conta a Ned Stark: The king eats, they say, and the Hand takes the shit (A Game of Thrones, Eddard I), que em italiano ficou como Il re si abboffa mentre il Primo Cavaliere si becca la merda, que em tradução livre para o português seria “O rei come enquanto o Primeiro Cavaleiro limpa a merda”, enquanto a tradução correta oficial é “Enquanto o rei come, a Mão limpa a merda”, para a sorte dos leitores brasileiros que puderam rir com o trocadilho. Leia o post completo sobre os dois principais erros na tradução para o italiano aqui https://patriciacorreiatradutora.wordpress.com/2019/02/02/os-erros-na-traducao-de-as-cronicas-de-gelo-e-fogo-em-italiano/

IRON THRONE/ TRONO DE FERRO/ TRONO DI SPADE – A tradução para o objeto mais cobiçado da história para o português foi literal e fiel. Já o italiano foi mais descritivo, pois eles usaram o equivalente a “Trono de Espadas”, já que, na verdade, o trono é feito de espadas. É interessante notar que, em inglês, o termo iron é utilizado para definir armas brancas em geral, assim como os Greyjoy definem o preço pago com a luta como the iron price, o preço do ferro, o que poderia justificar a escolha do tradutor italiano. Digno de nota também a conexão imediata com o título da série televisiva em italiano, Il Trono di Spade.

KRAKEN/ LULA GIGANTE/ KRAKEN – A tradução de kraken como “Lula gigante”, na minha opinião, é bastante questionável. O kraken é um animal mitológico muito conhecido e presente em diversos livros, jogos e filmes. Por isso, deveria ter sido deixado como tal. Ao usar “Lula gigante”, perdeu-se o elemento mítico. Mais um ponto a favor do tradutor italiano.

MERLING KING/ REI BACALHAU/ RE MERLING – Esta foi uma das traduções para o português que mais me chocaram. É difícil explicar a escolha do nome de um peixe tão comum como o bacalhau como tradução para merling, uma criatura aquática mitológica com a metade superior do corpo humana e a metade inferior de peixe, pertencente à família das sereias. Um outro ser mitológico que foi descaracterizado (ver Kraken, acima). Acredito que a escolha do tradutor tenha sido muito superficial, escolhendo um termo banal demais. Na minha opinião, teria sido melhor não traduzir, na falta de um nome novo que funcionasse, ou cunhar um termo novo.

MERLING ROCK/ ROCHEDO DO BADEJO/ ROCCA DI MERLING – Outro susto. É difícil imaginar uma motivação para usar uma tradução diferente para o mesmo termo em inglês (Ver Merling King, acima). Principalmente por terem simplesmente trocado de peixe. Se Merling King é “Rei Bacalhau”, porque Merling Rock é “Rochedo do Badejo”? A tradução para o italiano está correta, pois segue a mesma linha de Merling King. (Ver Spears of the Merling King, abaixo)

OTHERS/ OUTROS/ ESTRANEI – Aqui, Jorge Candeias usou uma tradução literal e correta, mas em italiano a tradução literal é Altri. Contudo, o tradutor Sergio Altieri fez bem em escolher Estranei, pois passa muito melhor a ideia de seres pertencentes a outro mundo. Foi uma boa sacada.

PUREBORN, ENTHRONED/ PURONATOS, ENTRONIZADOS/ SUPERNI, SUPERNI – O termo enthroned aparece muito pouco no texto e é um outro nome usado para referir-se aos pureborn, e receberam a devida distinção em português, mas não em italiano, pois receberam a mesma tradução usada para pureborn (puronatos), superni. Não é um erro grave, mas uma simplificação.

SEASTONE CHAIR/ CADEIRA DE PEDRA DO MAR/ TRONO DEL MARE – A tradução para o português está correta, mas no italiano ficou faltando informação, pois o termo seastone foi cortado e, em vez de uma cadeira, temos um trono. Este é um bom exemplo da influência do tradutor no texto, pois Trono del Mare soa muito melhor, portanto acredito que tenha sido uma escolha estilística do tradutor.

SHADOWBINDER/ UMBROMANTE/ VISITATRICE DEL BUIOShadowbinder é o termo que se usa para descrever Melisandre e Quaithe, por exemplo. São sacerdotisas de Asshai que realizam suas magias à noite. “Umbromante” é uma boa tradução, mas Visitatrice del buio (Visitadora da Escuridão) sai um pouco da ideia original. Em inglês, o termo bind tem o sentido de ligar, aprisionar ou conectar, o que implica que elas mantêm algum tipo de conexão com as forças das sombras, como um pacto.

SHAGGYDOG/ CÃO FELPUDO/ CAGNACCIO – Este é um caso bem interessante. Em italiano, o nome do lobo gigante de Rickon foi traduzido como Cagnaccio, um termo pejorativo, mas que também pode significar um cão grande e ameaçador, e talvez seja esse o sentido que o tradutor quis passar, já que o lobo gigante de Rickon era o mais agressivo de todos. Em português, no entanto, o tradutor escolheu um termo mais amigável, pois “Cão Felpudo” dá a ideia de um animal dócil e peloso, mais consoante ao nome que um garotinho como Rickon escolheria. A definição de shaggy em inglês é with long and untidy fur, ou seja, com pelo longo e desgrenhado, sem nenhuma informação sobre o caráter do animal. Comparando as traduções, podemos concluir que o leitor italiano recebe uma informação a mais que o leitor brasileiro, sobre o caráter do animal, enquanto o leitor brasileiro recebe uma imagem mais dócil do animal.

SKINCHANGER /TROCA-PELES /METAMORFO – A tradução em português, mesmo sendo uma tradução fiel e literal, dá a ideia de que a pessoa troca realmente de pele, enquanto na verdade é a sua mente que troca de corpo. Contudo, sendo equivalente ao termo em inglês, não posso criticar. A tradução italiana, metamorfo, não é ruim, mas também não é original, visto que Martin poderia ter usado um simples shape-shifter, a tradução de metamorfo, mas preferiu inventar um termo novo, escolha que não foi seguida pelo tradutor.

SPEARS OF THE MERLING KING /LANÇAS DO REI BACALHAU / LANCE DEL RE SOMMERSO – A tradução para o português está correta, tomando como referência Merling King/Rei Bacalhau. Entretanto, o tradutor italiano preferiu uma opção mais “criativa” introduzindo um novo termo no lugar de merling, que agora é o “Rei Submerso”.

WEIRWOOD/ REPRESEIRO/ ALBERO-DIGA – Ótimas as soluções encontradas tanto em português quanto em italiano, pois passam bem a ideia de uma árvore que retém água, como uma diga. Um ponto a mais para a tradução em português que, usando o sufixo -eiro, comum em nome de árvores, ficou realmente excelente.

WESTEROS /WESTEROS /CONTINENTE OCCIDENTALE – Aqui entramos novamente na questão do traduzir ou não topônimos. Westeros é um nome muito importante na história, e merece a devida atenção. A decisão de Jorge Candeias de não traduzir o termo foi, na minha opinião, muito acertada, assim como Winterfell. Convenhamos que “Oesteros” ou qualquer coisa semelhante não soaria muito bem. Já o italiano foi mais descritivo, optando por “Continente Ocidental”. Eu acredito que teria sido melhor continuar usando Westeros para não perder a identidade que Martin criou para a região, que é palco das principais ações. O problema se apresenta novamente em italiano quando o texto menciona os habitantes do continente, conhecidos em inglês como Westerosi, forçando o tradutor a adaptar o termo como “mulher ocidental” para Westerosi woman, e “cavalheiro ocidental” para Westerosi knight.

WIGHT/ CRIATURAS (TUMULARES)/ NON-MORTO – Este é outro termo pertencente ao universo mitológico cuja tradução, sempre na minha opinião pessoal, é um pouco curiosa. Em italiano, o non-morto me parece um termo muito generalizado, quase como um zumbi. Por sua vez, “criaturas” é genérico demais, enquanto “criaturas tumulares” é muito descritivo e não totalmente correto. Talvez fosse mais interessante deixar o termo em inglês, já que é muito popular em jogos de RPG e outras obras fantasy. O problema é que traduzir termos tão carregados de significado e tão únicos acaba gerando erros de interpretação, além de gerar associações indesejadas. Em minhas pesquisas, descobri que o termo parece ser derivado dos Barrow-wights de Tolkien, em “O Senhor dos Anéis”, que, por sua vez, veio do inglês antigo wiht, que significa ser vivo ou criatura. O termo barrow, também conhecido como tumulo, designa um monte de terra e pedras que cobre uma sepultura. Portanto, o termo passou a ser usado para identificar os não mortos, ou seja, os fantasmas ou criaturas que saíam dessas sepulturas de noite. Em italiano, sempre no universo imaginário fantástico de Tolkien, foi traduzido como Spettri dei Tumuli, e em português ficou como “Criaturas Tumulares”. Nos livros de Martin, a única forma que encontrei até agora foi “criatura”, sem a parte “tumular”, embora nos diversos sites de Wiki e Fandom o termo seja geralmente mencionado nas duas formas. Como o “tumular” nesse caso vem de barrow, uma informação que foi removida da obra de Martin, acredito que a tradução para o português deveria ter sido feita de modo semelhante à italiana, evitando usar a mesma tradução presente na obra de Tolkien.

WILDLINGS /SELVAGENS /BRUTI – A tradução em português está boa, não perfeita, pois é um pouco genérica, mas passa a essência selvagem deste povo. Em italiano, o tradutor preferiu bruti, que em italiano é sinônimo de rude, violento, portanto, espelha perfeitamente a essência dos wildlings.

WINTERFELL/ WINTERFELL/ GRANDE INVERNO – Em português, o tradutor decidiu não traduzir o nome da residência dos Stark por não ter encontrado um termo satisfatório, como ele mesmo explicou em sua Nota do Tradutor, no final do primeiro livro. Em Italiano, o problema foi resolvido com Grande Inverno, um termo que mantém o tema de inverno iminente, presente também no lema dos Stark, “O inverno está chegando”. Entretanto, numa análise mais detalhada da origem da palavra Winterfell, formada da winter (inverno) + fell (diversos significados), chegamos a algumas interpretações. A  primeira é que fell pode significar um monte ou uma colina, se considerarmos a origem escocesa, portanto, o significado poderia ser algo como “Colina invernal”; a segunda hipótese considera fell como o passado do verbo to fall (cair), portanto, identificando o local como “Lá onde o inverno caiu”; a terceira interpretação considera fell como um adjetivo, com significado de “mortal” ou “destrutivo”, portanto Winterfell significaria “Inverno mortal” ou “Inverno terrível”. Não sabemos qual era a intenção de Martin quando escolheu esse nome, talvez tenha considerado todas essas possibilidades justamente para oferecer diversas interpretações, todas corretas dependendo do ponto de vista.

ZORSE /CAVALO RAJADO, ZEBRALO /CAVALLO A STRISCE – O zorse é um animal muito comum entre os Dothraki, trata-se de um tipo de cavalo listrado como uma zebra, por isso achei “zebralo” ótimo! Já o calallo a strisce do italiano foi uma desilusão criativa. Um zebrallo teria funcionado melhor.

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Os erros na tradução de As Crônicas de Gelo e Fogo em italiano

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Traduzir já é, por si só, um trabalho complicado e altamente sujeito a erros, mas o problema é ainda maior quando se trata de séries, como O Senhor dos Anéis, Harry Potter, As Crônicas de Nárnia ou As Crônicas de Gelo e Fogo, para citar apenas alguns exemplos. Nessas obras, o tradutor do primeiríssimo livro geralmente desconhece o potencial da obra (pensem no primeiro livro de Harry Potter), se ela vai ou não ter uma continuação, o futuro dos protagonistas e, principalmente se as escolhas de termos que ele fizer no primeiro livro terão um impacto nos livros seguintes. Muitas vezes, nem mesmo o próprio autor conhece esses detalhes, pois ainda está escrevendo. Além disso, não podemos deixar de mencionar o fenômeno que é a dor de cabeça dos tradutores, o Fandom, ou seja, as comunidades online onde os fãs trocam informações de todo tipo, inclusive sobre os erros nas traduções.

No que diz respeito à tradução de As Crônicas de Gelo e Fogo, de George Martin, a versão luso-brasileira não ficou isenta de problemas. Mas os erros não são exclusividade do mercado lusófono. A tradução para o italiano também apresentou problemas graves. O renomado tradutor italiano Sergio Altieri, que também era escritor, falecido em 2017, recebeu muitas críticas do público. Não apenas pelos diversos erros cometidos, mas também pela liberdade com a qual traduziu o livro. Talvez seu lado escritor tenha falado mais alto e ele sentiu que precisava incluir alguns adjetivos aqui e ali, mudar completamente a sequência de uma frase para causar mais impacto, dar um pouco mais de poesia ao momento, ou simplesmente não conseguiu frear seu lado criativo de autor. Até mesmo o título em italiano para A Song of Ice and Fire virou Le cronache del ghiaccio e del fuoco, assim como em português temos As Crônicas de Gelo e Fogo, mas Martin escolheu a palavra song, é uma canção, ele é fascinado pelas canções épicas, mas infelizmente até este pequeno detalhe se perdeu. Talvez a escolha tenha sido influenciada pelas Crônicas de Nárnia, The Chronicles of Narnia? Contudo, não podemos afirmar que a tradução esteja ruim. Eu li o livro em italiano e está muito bem escrito. Impreciso sim, mas o livro em si, como obra literária, é muito bom, cativante e empolgante. Poderia ser melhor? Sim, se não contivesse tantos erros, mas o leitor italiano que não conhece o inglês tem em mãos um bom livro.

Dito isso, neste artigo vou apresentar os dois erros mais gritantes na versão italiana, a tradução de antler e Hand of the King.

ANTLER

No primeiro capítulo de A Guerra dos Tronos temos uma cena bastante simples e, até então, sem grande importância para o leitor que acabou de pegar o livro. No entanto, com o andar da história, a cena ganha outra dimensão, pois apresenta uma forte simbologia que se revela importantíssima para a trama. A cena se passa na floresta, um grupo de cavaleiros da Casa Stark está voltando para casa e encontra uma loba gigante morta. Ao tentar descobrir a causa da morte, eles encontram um chifre de veado estilhaçado na garganta do animal. Até aqui nada demais. Uma cena simples que pedia uma tradução simples. No entanto, o tradutor italiano decidiu que, em um mundo tão fantástico onde existiam lobos gigantes e outras criaturas ainda mais estranhas, um veado era um animal muito comum, e resolveu transformá-lo em um unicórnio! Sim, isso mesmo! Na primeira versão italiana a loba gigante morreu após lutar com um unicórnio! O problema é que o símbolo da Casa Stark é justamente um lobo gigante, enquanto o da Casa Baratheon é um veado, de forma que o evento na verdade era um presságio das tragédias que se seguiriam, mas sem a informação de que o chifre era de um veado, o leitor italiano ficou sem entender o motivo do espanto dos presentes, já que todos ficaram pasmos com a descoberta. A mesma informação foi omitida mais adiante no livro intencionalmente, já que não faria nenhum sentido, quando Catelyn associa a visita inesperada do rei, um cavaleiro da Casa Baratheon, à morada dos Stark, lembrando justamente do incidente entre a loba gigante e o veado. O leitor ficou sem entender o motivo da apreensão de Catelyn. O termo usado por Martin é antler, cuja definição no dicionário é each of the branched horns on the head of an adult deer, ou seja, cada um dos chifres da cabeça de um veado adulto, não deixando margens para dúvida. Vejam abaixo o trecho em questão em inglês e as respectivas traduções em português e em italiano.

O caso foi resolvido após uma reunião com a editora, o tradutor, e alguns fãs e bloggers na qual todas as partes foram ouvidas e a editora se comprometeu em corrigir esse e outros erros apontados pelos leitores. Obviamente o processo foi longo, pois a primeira edição é de 1999 e a tal reunião ocorreu em 2013, mas pelo menos os novos leitores agora podem contar com uma tradução mais apurada. Ao que parece, após o sucesso estratosférico do romance, alavancado pela série televisiva, as editoras elevaram também o status de seus leitores, que passaram da classe B, geralmente reservada ao gênero fantasy, à classe de cliente A+++!

TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS

“There’s something in the throat,” Robb told him, proud to have found the answer before his father even asked. “There, just under the jaw.”

His father knelt and groped under the beast’s head with his hand. He gave a yank and held it up for all to see. A foot of shattered antler, tines snapped off, all wet with blood.

A sudden silence descended over the party. The men looked at the antler uneasily, and no one dared to speak. Even Bran could sense their fear, though he did not understand.”

 TRADUÇÃO PARA O ITALIANO

«Le è rimasto qualcosa in gola.» Robb era lieto di aver trovato una risposta anche prima che suo padre ponesse la domanda. «Guarda là, appena sotto la mandibola.»

Lord Stark mise un ginocchio nella neve, frugando con la mano sotto il muso dell’animale. Diede uno strappo secco e sollevò ciò che aveva trovato, in modo che tutti potessero vedere: il rostro mutilato di un unicorno, la punta spezzata, frantumata, ancora imbrattata di sangue.

Sul gruppo dei cavalieri scese il silenzio. i loro sguardi rimasero fissi sul rostro. Nessuno osò aprire bocca. Bran percepì la loro paura, anche se non ne capì la causa”.

 TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS

“- Há alguma coisa na garganta” – disse Robb, orgulhoso de ter encontrado a resposta mesmo antes de o pai ter perguntado. “– Ali, por baixo da mandíbula.”

O pai ajoelhou-se e tateou sob a cabeça do animal. Deu um puxão e ergueu a coisa para que todos a vissem. Trinta centímetros de um chifre estilhaçado de veado, com as pontas partidas, todo vermelho de sangue. Um silêncio súbito caiu sobre o grupo. Os homens olharam inquietos para o corno, mas ninguém se atreveu a falar. Mesmo Bran pressentia seu medo, embora não compreendesse.”

Broche_da_Mão_do_Rei

 HAND OF THE KING

Outro caso clamoroso de erro envolve a tradução de Hand of the King, que é o principal conselheiro do rei. Em português, temos o termo traduzido corretamente como “Mão do Rei”, mas em italiano o termo foi traduzido como Primo Cavaliere, ou seja, “Primeiro Cavaleiro”. O tradutor com certeza não imaginava que o termo seria mencionado em diversas outras partes da história e que a alusão à “mão” como símbolo seria muito importante. Exemplos físicos são uma série de objetos pertencentes ao encarregado, como o broche em forma de mão que é símbolo de seu cargo, um colar de pequenas mãos apoiadas umas sobre as outras, etc. Até mesmo várias piadinhas ficaram sem significado para o leitor italiano, como quando Cersei diz a Jaime que ele deve assumir o lugar do pai como Mão do Rei, ele responde: A Hand without a hand? A bad jape (A Feast for Crows, Cersei I), que em italiano ficou como Un Primo Cavaliere mutilato? Pessima battuta, que em português seria: “Um Primeiro Cavaleiro mutilado? Péssima piada.”, mas a piada, infelizmente, se perdeu. Outro exemplo é a piadinha que Robert diz a Ned Stark: The king eats, they say, and the Hand takes the shit (A Game of Thrones, Eddard I), que em italiano ficou como Il re si abboffa mentre il Primo Cavaliere si becca la merda, que em tradução livre para o português seria “O rei come enquanto o Primeiro Cavaleiro limpa a merda”, enquanto a tradução correta oficial é “Enquanto o rei come, a Mão limpa a merda”, para a sorte dos leitores brasileiros que puderam rir com o trocadilho.


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A nova tradução de O Senhor dos Anéis – Adeus a orcs, goblins e trolls

O mundo dos fãs de Tolkien está em rebuliço! Uma nova tradução das obras de Tolkien já está nas livrarias. Com a publicação de Beren e Lúthien A Queda de Gondolin, alguns dos termos com os quais já estávamos acostumados receberam alterações, como orcs, goblins e trolls. Agora nós temos orques, gobelins e trols!

UM POUCO DE HISTÓRIA

Entre os leitores mais jovens, nem todos sabem que a famosíssima trilogia O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, foi escrita entre 1937 e 1949, com muitas partes criadas durante o período da Segunda Guerra Mundial, e teve sua primeira publicação entre 1954 e 1955. Desde então, a obra foi traduzida para 56 idiomas e recebeu sua versão cinematográfica entre 2001 e 2003 sob a direção de Peter Jackson, tornando-se um recorde de bilheteria.

A primeira tradução em português do Brasil foi publicada entre 1974 e 1979 pela editora Artenova, com tradução de Antônio Rocha e Alberto Monjardim. A edição atualmente disponível é da editora Martins Fontes e foi publicada em 1994, com tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves. As edições sucessivas passaram pelas mãos de Amiro Pisetta e Ronald Kyrmse.

Contudo, as traduções sempre foram alvo de críticas, tanto que quando a editora HarperCollins, que detém os direitos sobre as obras de Tolkien no Reino Unido, abriu filial no Brasil, começou a receber cartas de fãs pedindo que comprassem os direitos das obras e as republicasse com uma nova tradução, já que a versão da Martins Fontes continha mais de 200 erros e omissões.

A súplica dos fãs foi atendida e em novembro de 2017 foi publicado Beren e Lúthien, seguido por A Queda de Gondolin, em agosto de 2018, com traduções de Ronald Kyrmse e Reinaldo José Lopes, respectivamente, obras até então inéditas no Brasil, dando início a um longo projeto que promete publicar as obras completas de Tolkien no Brasil nos próximos 7 anos.

A MALDIÇÃO DAS TRADUÇÕES

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Naturalmente, os problemas com as traduções de uma obra tão amada e complexa não foram poucos. Em especial, a tradução para o holandês, em 1956, e o sueco, em 1959, não foram apreciadas pelo autor, que fez duras críticas aos tradutores.

Em 1947, O Hobbit foi traduzido para o sueco como Hompen. Em Portugal, a Livraria Civilização traduziu O Hobbit como O Gnomo, em 1962. Obviamente Tolkien não aprovou. No Brasil, o livro foi publicado em 1976 pela Artenova como O Hobbit e, em 1985, Portugal finalmente recebeu sua nova tradução com o título correto, O Hobbit.

Muito chateado com o rumo que as traduções estavam tomando, principalmente com as versões para o sueco e o holandês, em 1966 Tolkien resolveu escrever um guia para a nomenclatura de sua obra, A Guide to the Names in The Lord of the Rings, que foi finalizado em 1967, com o propósito de servir de orientação para os tradutores.

A NOVA TRADUÇÃO

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Com a tradução para o português de Beren e Lúthien e A Queda de Gondolin, foram introduzidas importantes mudanças na nomenclatura. Em especial, os termos orc e goblin, que passaram a ser traduzidos como orque e gobelim. A nova tradução causou controvérsias entre os fãs, o que é natural em uma obra complexa e de fama mundial como a de Tolkien, mas é importante analisar a questão do ponto de vista do tradutor, e não apenas dos fãs.

Inicialmente, o próprio Tolkien se manifestou contra a tradução dos termos hobbit e orc em cartas, onde defendia a origem inglesa das histórias e seus personagens, e que suas características deveriam ser mantidas, bem como os nomes de lugares, incluindo shire. Contudo, após uma troca extensa de cartas entre fãs, tradutores e estudiosos, tudo indica que ele acabou se tornando mais flexível em relação às traduções de alguns termos, levando em consideração a necessidade de facilitar a compreensão da obra em outros países, imersos em realidades muito distantes dos condados ingleses. Com o passar dos anos, muitos dos termos criados por Tolkien entraram para o vocabulário comum e hoje orcs, goblins e trolls estão presentes em toda parte, da literatura fantástica aos jogos de RPG.

A editora HarperCollins Brasil montou uma equipe digna de respeito para as novas traduções, que conta com um verdadeiro “Conselho de Tradutores”, composto por nomes como o pesquisador tolkieniano Ronald Kyrmse, os tradutores Reinaldo José Lopes e Gabriel Brum e o gerente editorial da HarperCollins Brasil, Samuel Couto, um grande fã de Tolkien e responsável pelas obras do autor na editora. As intenções são as melhores possíveis, pois pretendem dar à obra uma nova dimensão, semelhante ao status que possui no Reino Unido, onde é considerada uma obra canônica.

No caso de orc, houve quem criticasse a escolha alegando que teria sido feito um empréstimo do francês, e não uma adaptação fonética, mas acredito que seja uma crítica infundada, considerando a seriedade da equipe de tradutores. Do ponto de vista linguístico, a adaptação fonética é correta. Nós não temos palavras com o c mudo no final, e orc já era naturalmente pronunciado como “orque” em português, então nada mais natural do que passar a utilizar essa grafia em português, como fizemos com outras palavras como tank/tanque ou park/parque, para citar apenas alguns exemplos.

Os tradutores afirmam que foi feita uma extensa pesquisa sobre a origem da palavra orc como é usada por Tolkien, que estariam no inglês antigo de Beowulf, um dos mais antigos poemas épicos da língua inglesa, onde aparecia como orcneas, supostamente derivado do latim orcus, significando inferno, demônio. Este se diferencia do orc moderno que dá origem ao nome de vários cetáceos (orca). Contudo, nem mesmo a opção de usar “orco” me parece melhor, principalmente porque se trata de uma palavra já dicionarizada em português, com o sentido de personificação da morte, de modo que não seria um termo novo.

O outro termo que gerou controvérsias foi goblin, que passou a ser “gobelim”. Neste caso, os tradutores afirmam que tentaram seguir a etimologia do inglês, que é derivada do grego e do latim como gobalos e kobalos, entrando para o inglês como goblin, e consequentemente para o francês como gobelin. Eles tentaram imaginar como a palavra teria entrado para o português no mesmo período, e como o encontro consonantal b-l é recente, a opção mais acertada seria “gobelim”.

O trabalho do tradutor é ingrato, pois suas escolhas nem sempre são compreendidas pelo leitor, algumas vezes nem mesmo pelo próprio autor. Quem não é profissional da área não tem ideia do que se passa pela cabeça de um tradutor na hora de escolher um termo, das inúmeras conjecturas que leva em consideração, é quase como uma operação aritmética linguística! Mas é importante saber que por trás de cada obra há um enorme trabalho de pesquisa feito por profissionais com o objetivo oferecer o melhor produto possível, sempre respeitando o estilo do autor. Também é importante ressaltar que as alterações foram aprovadas pela Tolkien Society, a maior autoridade no assunto.

Dito isso, eu confesso que gostei das novas traduções para os termos, embora ainda não tenha lido os novos livros. Agora só me resta esperar que a minha cópia de Beren e Lúthien chegue do Brasil!


LINKS

Entrevista com o Conselho de Tradução: https://www.valinor.com.br/51098

Artigo no site Tolkien Brasil: http://tolkienbrasil.com/noticias/diversas/as-origens-da-palavra-orc/

Artigo no site Jovem Nerd: https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/o-senhor-dos-aneis-mudancas-traducao-br/

Site da Tolkien Society: https://www.tolkiensociety.org/


A revolução linguística do gênero não-binário

A língua é um organismo vivo que acompanha a evolução de seu povo. Basta consultar um dicionário etimológico para conhecer a “história” de uma palavra, sua “árvore genealógica”, e entender como ela evoluiu ao longo do tempo.

Primeiramente, a mudança é apenas oral, influenciada por diversos fatores, como a que aconteceu após as invasões germânicas à Inglaterra, por exemplo, ou com a conquista do Brasil pelos portugueses. Entretanto, com o passar do tempo, essas mudanças acabam sendo incorporadas ao idioma oficial. É um processo que geralmente leva anos, mas é inexorável.

No entanto, atualmente as mudanças ocorrem muito rápido devido à velocidade com a qual a informação viaja pelos meios de comunicação, graças à Internet e às redes sociais, como WhatsApp, Facebook, Instagram, etc.

A última revolução linguística é a inclusão do gênero não-binário. Com a crescente visibilidade da comunidade queer e a consequente pressão pela sua aceitação e inclusão na sociedade, os cânones linguísticos estão sendo desafiados e uma nova linguagem está nascendo, fruto de mudanças na sociedade.

O gênero não-binário é usado para indicar as pessoas que não se identificam nem com o gênero feminino nem com o masculino, e é um termo guarda-chuva para diversas opções de gênero, como intergender ou genderfluid. Quem se identifica como não-binário geralmente prefere ser tratado com um pronome neutro.

No entanto, a política de inclusão usada para respeitar essa preferência gerou um problema linguístico bastante delicado para os tradutores, principalmente com relação aos pronomes. Em inglês, deu-se preferência ao uso da terceira pessoa do plural they/them/their, em vez de he/she, her/his, mesmo que isso gere alguma confusão na compreensão, pois não é fácil saber se o sujeito de uma frase é plural ou singular não-binário.

Uma outra mudança importante é o uso de termos neutros nas profissões (flight attendant em vez de stewardess, police officer em vez de policeman, spouse/significant other em vez de husband/wife), ou até mesmo Mx, em vez de Mr. e Mrs., para senhor e senhora, uma ótima solução que permite uma maior inclusão de forma relativamente simples. Contudo, nas línguas neolatinas, o problema persiste, pois suas raízes são binárias.

A origem da distinção entre os gêneros masculino e feminino em português está na estrutura do latim e, conforme ressaltado por alguns linguistas recentemente, incomodados com os debates nas redes sociais sobre o binarismo masculino/feminino, a única distinção real no português seria a do gênero feminino, pois o sufixo -o seria usado igualmente para o gênero masculino e o neutro, que existe no latim.

De modo informal, o português adotou o uso dos sufixos -x ou -@, como “alunx”, no lugar de aluno/aluna, ou “amig@”, no lugar de amiga/amigo, uma solução que pode funcionar em textos escritos informais, como as redes sociais, mas é impraticável na forma oral. Basta pensar nos jogos que incluem áudio ou nas pessoas com deficiência visual que precisam de leitores de tela, por exemplo, embora já se ouça, informalmente, as versões “amigues”, “querides”, etc. O italiano está seguindo a mesma linha, usando também o asterisco no final das palavras para marcar o gênero neutro, ou a vogal -u na forma oral, mas de forma geral o problema é o mesmo.

Do ponto de vista do tradutor, na ausência de um consenso entre os gramáticos e a consequente inclusão oficial de uma forma neutra, se um dia isso ocorrer, há que se procurar uma solução alternativa que agrade a todos, mas respeite as regras gramaticais e semânticas da nossa língua. Tudo isso obviamente considerando que o cliente do tradutor esteja de acordo com este ponto de vista.

A solução que encontrei até o momento, e que acredito que esteja alinhada com a da maioria dos tradutores, é a da adaptação estratégica do texto, ou seja, a escolha de termos neutros no lugar de outros claramente binários, ou uma reformulação da frase para eliminar qualquer referência binária. Alguns exemplos são:

Em vez de: homem, mulher
Prefira: pessoa, indivíduo, ser humano, humanidade, população, sociedade
Em vez de: menino, menina, rapaz, moça
Prefira: criança, jovem, juventude
Em vez de: o/a, do/da, dele/dela
Prefira: omitir ou usar “de” (casa de Ana)
Em vez de: Diretor /Diretora
Prefira: Direção

Obviamente, em alguns casos é simplesmente impossível usar um termo neutro, e até mesmo encontrar uma solução neutra requer algum malabarismo linguístico, mas com algum esforço e uma certa liberdade criativa, é possível criar um texto menos discriminatório e mais inclusivo.

A mesma estratégia está sendo usada cada vez mais pela imprensa em expressões como “a origem dos seres humanos”, em vez de “a origem do homem”. Em inglês, até mesmo a famosa frase do Capitão Kirk, de Star Trek, mudou de Where no man has gone before para Where no one has gone before, um claro sinal de que esta nova posição está ganhando força na sociedade.

Se um dia fizemos um esforço para incluir “ele/ela”, “senhoras e senhores”, “professor(a)”, “aluno(a)”,  em um texto para incluir o gênero feminino, também podemos nos esforçar para incluir todos aqueles que não se identificam com o gênero binário. É uma questão de respeito.

Glossário trilíngue de GOT

Leggere in italiano

Finalmente consegui terminar o glossário (inicial) de GOT! Esta é uma versão atualizada do glossário publicado anteriormente aqui. Esta atualização contém 174 termos coletados durante a leitura dos dois primeiros volumes das Crônicas de Gelo e Fogo, além de outros coletados por curiosidade durante as pesquisas, como alguns nomes de espadas e navios. O ponto de partida foram os livros em português, edição da Leya de 2015, com tradução de Jorge Candeias. Após coletar os termos, fui pesquisando e comparando com as traduções encontradas na versão em italiano e no original em inglês, além das diversas Wikis e Fandoms online. Não é um glossário exaustivo, mas contém os principais termos usados na obra, além de oferecer uma visão interessante das diferentes escolhas feitas em cada idioma, como a escolha de traduzir alguns termos ou não, algumas soluções questionáveis e outras muito criativas!

Como recurso de pesquisa em inglês, usei o site “A Search of Ice and Fire“. Para quem ainda não conhece, é uma ferramenta fantástica que permite pesquisar termos dentro das obras, como se você tivesse o livro em suas mãos!

Caso alguém encontre algum erro ou conheça outras traduções usadas, por favor deixe um comentário. Eu agradeço a colaboração. Alguns termos apresentam duas traduções dentro da mesma edição ou foram traduzidos diversamente na edição mais atual, por este motivo alguns verbetes apresentam duas traduções.

A ideia no futuro é colocar este glossário online para incluir também outros idiomas, pois pode se tornar uma boa fonte de referência.

Em breve, publicarei um post comentando os termos mais interessantes. Aguardem!

INGLÊSPORTUGUÊSITALIANO
AntlerChifre de veadoRostro di unicorno/ Corna di cervo
AntlersHastesAntlers
ArborÁrvoreArbor
AshemarkCinzamarcaAshemark
Bear IslandIlha dos UrsosIsola dell’Orso
Bend the knee, ToDobrar os joelhosGiurare fedeltà/ Piegare le ginocchie
BitterbridgePonteamargaPonte Amaro
Black WindVento NegroVento Nero
BlackfyreBlackfyreBlackfyre
BlackhavenPortonegroBlackhaven
BlackmontMonpretoBlackmont
BlacktydePretamareBlacktyde
Blackwater Rush/Bay/Battle of the BlackwaterÁgua Negra, Torrente da/ Baía da/ Batalha daAcque Nere, Fiume delle/ Baia delle /Golfo delle/ Battaglia delle
BloodflyMosca de SangueMosca del Sangue
Bloody MummersSaltimbancos SangrentosGuitti Sanguinari
Blue ForkRamo AzulForca Blu
BrighroarBrilhante RugidoRuggito di Luce
Cape of EaglesCabo das ÁguiasCapo delle Aquile
Casterly RockRochedo CasterlyCastel Granito
Castle BlackCastelo NegroCastello Nero
Children of the ForestFilhos da FlorestaFigli della Foresta
Cinnamon WindVento (de) CanelaVento di Cannella
ColdhandsMãos-friasManifredde
CrannogmenCranogmanosCrannogmen
Dagmer CleftjawDagmer Boca-RachadaDagmer Mascella Spaccata
Deepwood MotteBosque ProfundoDeepwood Motte
DirewolfLobo GiganteMeta-lupo
Doom of ValyriaPerdição de ValyriaDisastro di Valyria
DragonlordsSenhores de DragõesSignori dei Draghi
DragonstonePedra do DragãoRoccia del Drago
Drowned GodDeus AfogadoDio Abissale
Duncan the SmallDuncan, o PequenoDuncan il Piccolo
Duncan the TallDuncan, o AltoSer Duncan l’Alto
Eastwatch-by-the-seaAtalaialeste-do-marForte Orientale
EnthronedEntronizadosSuperni
Eyrie’s NeedleNinho da ÁguiaNido dell’Acquilla
Faceless MenHomens Sem RostoUomini senza volto
Faith of the SevenFé dos SeteCulto dei Sette Dei
FirewyrmWyrm de FogoIdra di Fuoco, vermi di fuoco
First MenPrimeiros HomensPrimi Uomini
FoamdrinkerBebedor de EspumaBevitrice di Schiuma
Free CitiesCidades LivresCittà Libere
FreeriderCavaleiro LivreCavalieri indipendenti
FrostfangsPresas de GeloArtigli di Gelo
Garth GreenhandGarth Mão VerdeGarth Manoverde
GhostFantasmaSpettro
Ghost HillMonte EspíritoCollina Fantasma
GodsgraceGraçadivinaGrazia degli Dei
Golden ToothDente DouradoZanna Dorata
GrandviewBelavista/ VistagrandeGrandview
Great WykGrande WykGrande Wyk
GreatjonGrande-JonGrande Jon
Green ForkRamo VerdeForca Verde
Green MenHomens VerdesUomini Verdi
Greensight/ Green dreamVisão Verde /Sonhos VerdesVisione dell’oltre/ Veggente verde/ Oltre-vedenti
Grey KingRei CinzentoRe Grigio
Grey WindVento CinzentoVento Grigio
GreyscaleEscamagrisMorbo Grigio
Greywater WatchAtalaia de Água CinzentaTorre delle Acque Grigie
Griffin’s RoostPoleiro do GrifoPosatoio del Grifone
GrumkinGramequim?
Hand of the KingMão do ReiPrimo Cavaliere
HarlawHarlawHarlaw
HeartsbaneVeneno de CoraçãoVeleno nel Cuore
HellholtToca do InfernoHellholt
High HermitageAlto ErmitérioAlto Eremo
HighgardenJardim de CimaAlto Giardino
Horn HillMonte ChifreCollina del Corno
House of the UndyingCasa dos Imortais/ Casa dos ImorredourosCasa degli Eterni
IceGeloGhiaccio
Iron FleetFrota de FerroFlotta di Ferro
Iron IslandIlha de FerroIsole di Ferro
Iron ThroneTrono de FerroTrono di Spade
IronbornHomens de Ferro/ Nascidos de FerroUomini di Ferro
IronwoodPau-ferroLegnoferro
King’s LandingPorto RealApprodo del Re
KingsgraveTumbarrealTomba del Re
Kingslayer, regicideRegicidaSterminatore di Re
KrakenLula GiganteKraken
LadyLadyLady
Lady ForlornLady ForlornSignora Piangente
LightbringerLuminíferaPortatrice di Luce
LittlefingerMindinhoDitocorto
Lonely LightLuz SolitáriaLuce Solitaria
Long NightLonga NoiteLunga Notte
LongclawGarralongaLungo Artiglio
Lord of the CrossingSenhor da TravessiaSignore del Guado
LordsportFidalportoLordsport
MaesterMeistreMaestro
Merling KingRei BacalhauRe Merling
Merling RockRochedo do Badejo???
MilkwaterGuadeleiteFiumelatte
Moat CailinFosso CailinMoat Cailin
Mud GatePortão da LamaPorta del Fiume/ Porta del Fango
Mummer’s FordVau do SaltimbancoMummer’s Ford
Neck, theGargaloIncollatura
NightfallAnoitecerCrepuscolo
Night’s WatchPatrulha da NoiteGuardiani della Notte
NightsongNocticantigaCanto Notturno
NymeriaNymeriaNymeria
OathkeeperCumpridora de PromesasGiuramento
Old WykVelha WykVecchia Wyk
OldtownVilavelhaVecchia Città
OrkmontMontrasgoOrkmont
OthersOutrosEstranei
Oxcross/ Battle of OxcrossCruzaboi /Batalha de CruzaboiOxcross/ Battaglia di Oxcross
Pigrun AlleyBeco do Porco CorridoVicolo dei maiali
PurebornPuronatosSuperni
RangersPatrulheirosRangers
Raventree HallCorvarbor, Solar deRaventree Hall
Reach, theCampinaAltopiano
Red ForkRamo VermelhoForca Rossa
Red KeepFortaleza VermelhaFortezza Rossa
Red MountainsMontanhas vermelhasMontagne Rosse
Red RainRubra ChuvaPioggia Rossa
RiverlandsTerras FluviaisTerre dei Fiumi
RiverrunCorrerrioDelta delle Acque
Ruby FordVau RubiGuado dei Rubini
Rushing FallsCataratas ImpetuosasCascate Impetuose
SaltcliffeSalésiaSaltcliffe
SandsilkSedareiaTunica di seta color sabbia
Sea BitchCadela do MarStrega del Mare
SeagardGuardamarSeagard
Seastone ChairCadeira de Pedra do MarTrono del Mare
Sellsword/ SellsailMercenárioMercenario
SerSorSer
Shadow TowerTorre SombriaTorre delle Ombre
ShadowbinderUmbromanteVisitatrice del Buio
ShadowcatGato-das-sombrasPantera-ombra
ShaggydogCão FelpudoCagnaccio
SkinchangerTroca-pelesMetamorfo
Skirling PassPasso dos GuinchosPasso Skirling
SkyreachAlcancelesteAltocielo
Snow bearUrso-das-nevesOrso delle Nevi
Sons of the HarpyFilhos da HarpiaFigli dell’Arpia
Sorrowful MenHomens PesarososUomini del Dispiacere
StarfallTombastelaStelle al Tramonto
StepstonesPassopedraStepstones
StewardsIntendentesAttendenti
StillbornNatimortoFiglio nato morto
StonehelmPedrelmoStonehelm
StonesnakeCobra das PedrasStonesnake
Storm’s EndPonta TempestadeCapo Tempesta
SummerVerãoEstate
Summer IslandsIlhas de VerãoIsole dell’Estate
Sunset SeaMar do PoenteMare del Tramonto
SunspearLançassolarLancia del Sole
Tall Trees TownVila das Árvores AltasCittà degli Alberi Alti
The Brave CompanionsBravos CompanheirosBravi Camerati
The HoundCão de CaçaIl Mastino
The Mountain that RidesA Montanha que CavalgaLa Montagna che Cavalca
Tower of JoyTorre da AlegriaTorre della Gioia
TreecatGato-das-árvoresGatto selvatico
TridentTridenteTridente
UnsulliedImaculadosImmacolati
UplandsTerraltasUplands
WargWargWarg
WarlocksMagosStregoni
Water GardenJardins de ÁguaGiardini dell’Acqua
WeirwoodRepreseiroAlbero-diga
WesterosWesterosContinente Occidentale
WhitetreeBrancarborWhitetree
Widows’s wailLamento da ViúvaLamento di Vedova
WightCriaturas/ Criaturas tumularesNon-morto
WildfireFogovivoAltofuoco
WildlingsSelvagensBruti
WindwyrmTorre de WindwyrmTorre del Drago del Vento
WinterfellWinterfellGrande Inverno
WolfswoodMata de LobosForesta del Lupo
WyrmWyrmIdra
WyvernSerpeViverna
YronwoodPaloferroYronwood
ZorseCavalo rajado/ ZebraloCavalli a strisce

A nova tradução da Odisseia, uma interpretação feminina

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Durante séculos as mulheres não tiveram acesso ao estudo, pois este era um privilégio reservado aos homens. Por esse motivo, as grandes obras clássicas foram não só escritas, mas, ao menos até um período relativamente recente, também traduzidas exclusivamente por homens. Em nossa sociedade patriarcal, isso nos levou consequentemente a uma visão do mundo antigo através de lentes masculinas.

Mas vocês já tentaram imaginar como seria esse mesmo mundo clássico de deuses e heróis gregos e romanos se as traduções tivessem sido feitas por uma mulher?

Emily Wilson, tradutora e estudiosa de literatura grega, está mudando a história, literalmente. Em 400 anos desde sua primeira tradução do grego, realizada em 1615, ela foi a primeira mulher a traduzir a Odisseia de Homero para o inglês. Uma obra épica agora com uma tradução igualmente épica!

O livro foi publicado em novembro de 2017 pela W. W. Norton e sua versão parece estar dando o que falar, pois fez mudanças que, embora pequenas, causaram rebuliço. No entanto, sua versão foi tão bem aceita que passou a substituir a tradução anterior, de Richard Lattimore.

Um bom exemplo de sua nova interpretação é o termo “polytropos”, usado por Homero na primeira linha do livro para descrever Odisseu. Em grego, o termo “poly” significa “muitos”, e “tropos” significa “virar” ou “verter”, portanto, o sentido que o autor deseja passar é de um homem com muitas versões. Nas inúmeras traduções que o famosíssimo poema épico recebeu, o termo foi traduzido das mais variadas formas. Alguns optaram por adjetivos mais positivos, como “versátil” ou “engenhoso”, outros desejaram passar uma conotação mais negativa, com termos como “astuto” ou “inquieto”. Contudo, poucos captaram a ideia principal de duplicidade que Homero desejava passar, definido pela tradutora em inglês como “a man of many turns”. Sua novíssima versão usou o termo “complicado” (“a complicated man”), para passar a ideia de um homem conturbado, de quem podemos esperar qualquer coisa.

Em português tivemos várias versões, que vão de “homem multiversátil” (Vieira) e “herói astucioso” (Nunes) a “muitas-vias” (Wener) e “multifacetado” (Schuler), as duas últimas estando, na minha humilde opinião, mais perto do original.

Mas o mais interessante são os termos usados por Odisseu ao pedir que seu filho Telêmaco mate todas as mulheres do palácio que tiveram relações carnais com os pretendentes de sua esposa. Nas traduções anteriores, ele se referia a essas mulheres como “putas” ou “prostitutas”. No entanto, Wilson afirma que esta não é uma tradução correta do termo grego, que na verdade era apenas um artigo definido feminino.

Ela lembra também que em outras partes da obra Homero usa termos derivados de “dominar” e “subjugar” para descrever tais mulheres, o que a levou a deduzir que elas não eram livres, mas escravas, e, portanto, não tinham nenhum direito, e não poderiam recusar o assédio dos outros homens na ilha.

Este pequeno detalhe demonstra uma clara visão misógina da parte dos tradutores anteriores. Na nova versão, Wilson optou por usar apenas “essas moças” (“these girls”), retirando qualquer outra menção ofensiva. E nós, mulheres, aplaudimos!

A questão que fica é: em que medida as traduções de obras clássicas influenciaram a ideia que temos hoje das civilizações antigas? E de que forma uma interpretação misógina ou deturpada da figura feminina influenciou as gerações seguintes?  Ou ainda, e se a única versão disponível da Odisseia até hoje fosse a de Emily Wilson, como isso teria influenciado nossa visão do mundo grego? Só nos resta esperar que mais tradutoras, ou até tradutores com uma visão mais neutra dos precedentes, decidam retraduzir outras grandes obras clássicas com o intuito de proporcionar versões mais modernas e transparentes.

FONTES:

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Odisseia

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A relação entre língua nativa e o modo de ver o mundo

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Um dos aspectos mais interessantes de aprender uma língua estrangeira é justamente perceber como uma determinada frase é expressa em outro idioma, pois através desse processo podemos compreender o modo de pensar daquele povo, já que língua e cultura estão intrinsecamente ligados.

Como a linguagem é nossa principal forma de comunicação, ela também condiciona nossa visão do mundo, podendo influenciar até mesmo nosso modo de viver.

O economista comportamental Keith Chen, da Universidade de Los Angeles, descobriu que os chineses, por não terem na sua língua um tempo verbal preciso para indicar o futuro, são 30% mais propensos a economizar do que falantes de outros idiomas que exigem uma distinção clara de tempo.

Segundo sua teoria, nas línguas nas quais é possível expressar linguisticamente o futuro de forma distinta do presente, como o inglês e o português, o futuro parece muito distante, e isso de alguma forma leva a pensar menos no futuro e, consequentemente, a economizar menos. Entretanto, se o futuro e o presente não estão distintos na linguagem, é mais fácil economizar. Ainda segundo o resultado de sua pesquisa, não ter um tempo futuro na gramática influi até no índice de fumadores ou de obesidade, pois como o futuro parece menos distante, pensa-se com mais seriedade nas consequências do que se faz. Veja o vídeo de sua apresentação na Ted Talk aqui.

Um bom exemplo de como a língua influencia o modo de pensar são os pirarrãs, um povo indígena brasileiro que vive na Amazônia. Eles não conseguem quantificar com exatidão as coisas, pois seu sistema numérico vai apenas até o número 3. Após essa quantidade, tudo é ou “muito” ou “pouco”. Imaginem o problema na hora de aprender matemática.

Isso explica porque algumas palavras são intraduzíveis em outros idiomas, levando os tradutores a um verdadeiro contorcionismo linguístico. Um exemplo clássico é a palavra “saudade” em português, que em inglês pode assumir diversas formas dependendo do contexto, como to miss, to be homesick, to long for, etc.

Até mesmo a noção de gênero é afetada pela língua, pois uma pesquisa realizada por Lera Boroditsky, uma pesquisadora de ciências cognitivas, apontou que as crianças em Israel se conscientizavam de seu gênero um ano antes das crianças da mesma idade na Finlândia, pois o hebraico possui diversos modos de marcar o gênero nas palavras, enquanto no finlandês essa diferença é quase inexistente.

Carlos Magno, o grande imperador, já sabia disso. É atribuída a ele a frase “Conhecer uma segunda língua significa possuir uma segunda alma.” Já em 1940 o linguista Benjamin Whorf formulou a teoria de que a língua plasma o cérebro de tal maneira que duas pessoas que falam idiomas diferentes serão sempre diferentes do ponto de vista cognitivo, o que levou à Hipótese de Sapir-Whorf, ou relativismo linguístico.

A essa altura você deve estar se perguntando se não é a cultura que influencia a língua. A verdade é que as duas estão tão intimamente ligadas que é impossível criar uma teoria absoluta. O fato é que cada língua é um universo em si, e para aprender bem um idioma, é necessário conhecer não só sua gramática mas também sua cultura e estrutura, bem como a arquitetura de pensamentos que a gerou.

Fontes:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pirarrãs

https://www.wsj.com/articles/SB10001424052748703467304575383131592767868

https://www.corriere.it/salute/neuroscienze/16_febbraio_26/lingua-influenza-personalita-modella-cervello-95a1f04a-dc83-11e5-830b-84a2d58f9c6b.shtml?fbclid=IwAR1EaWBUgR914p3LC_4XF858CrEtijs5iff28wO-21I-LN-A9qFqZ7n2e04

 

Lost in translation, o caso de Hodor

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Traduzir é, basicamente, uma questão de escolhas.  Escolher a palavra certa para passar a mesma mensagem na língua de chegada como foi expressa pelo autor na língua de origem. Obviamente, nem sempre uma palavra basta, muitas vezes precisamos usar várias palavras, recorrer a expressões idiomáticas de igual sentido, mesmo que as palavras sejam totalmente diferentes, enfim, o importante é que a mensagem seja equivalente.

No entanto, isso nem sempre é possível, principalmente quando a tradução esbarra em trocadilhos que funcionam somente na língua original. Um tradutor competente encontra sempre um modo de passar a ideia contida no original, mas frequentemente algo se perde no meio do caminho. Um pouco de ironia, uma piadinha, uma alfinetada, aqueles detalhes sutis que fazem a diferença. Um exemplo disso é a explicação para o nome do personagem “Hodor”, da séria televisiva “A Guerra dos Tronos”. (ATENÇÃO: SPOILER A SEGUIR!!!)

A ideia de George Martin foi brilhante e o enigma foi revelado em um episódio que deixou muitos fãs com lágrimas nos olhos, mas a cena, ou a explicação da origem de seu nome, não teve o mesmo impacto em outros idiomas, justamente por ser uma espécie de trocadilho em inglês, uma forma abreviada da expressão “Hold the door”, ou “Segure a porta”, em português. Em inglês é fácil entender como “Hold the door” se transformou em “Hodor”, única palavra pronunciada pelo personagem após o momento que marcou sua vida, que acabou sendo usada como seu nome. Mas nos outros idiomas? Como traduzir isso? Imaginem a dor de cabeça dos tradutores….

Rolou até um vídeo muito popular no YouTube que mostra as diversas soluções encontradas em outros idiomas, todas muito longe do original, infelizmente. Veja aqui e aqui. Em português, a tradução ficou como “Segure a porta”. Mas como passar disso a “Hodor”, já que o nome do personagem já estava decidido e incluso no livro provavelmente antes que sua origem fosse revelada pelo autor? A solução encontrada não é de todo ruim, e isso não é absolutamente uma crítica ao tradutor, que fez um excelente trabalho, mas não há como negar que há uma perda, um caso emblemático de “lost in translation”.  No episódio em português ficou assim: “Segure a porta, a porta, a por…, hodor.” 🙂

Vejamos as soluções por idioma:

Português –  Segure a porta
Francês – Pas au-dehors
Italiano – Trova un modo
Espanhol – Aguanta el porton
Japonês – Boku da
Alemão – Halt das tor
Holandês – Houd de deur
Dinamarquês – hold døren

A conclusão é que as línguas latinas foram penalizadas pela distância fonética com a palavra “door”, enquanto as línguas de origem anglo-saxônica foram favorecidas. Talvez escolhendo uma tradução que se afastasse um pouco do significado, door=porta, e apostasse na sonoridade, algo como “parar a horda”, “bloquear o corredor”, “precisamos de um salvador”, ou algo assim. Enfim, em certos casos o melhor é assistir ao episódio no idioma original com legendagem! 😀

Outras referências:

Leio o artigo sobre o trabalho do dublador de Game of Thrones aqui.

Veja a cena em inglês com legendas em português aqui.

Veja a cena dublada em português aqui.